Por: A Tribuna
19/05/2021
10:05

A justiça em Amparo deve analisar em breve uma ação judicial que envolve uma das mais importantes empresas de Amparo a Agropecuária Tuiuti S.A. De um lado está a família Benedictis, fundadores da marca Shefa e, do outro lado, está um dos mais agressivos e misteriosos investidores do País, Francisco Silveira Filho, dono da empresa de crédito BS Factoring. O caso na justiça teve início em fevereiro de 2017 e ainda não teve um desfecho julgado.

No processo iniciado pela Kobold é questionada a intromissão da BS Factoring nos negócios do laticínio.

A Shefa Fundada em 1976 pela família Benedictis, a Agropecuária Tuiuti S.A., em Amparo, se tornou conhecida pela marca Shefa. Em 2015/2016, começou a ter dificuldade financeira, quando os bancos diminuíram as linhas de crédito para o setor de leite e aumentaram os juros. Sem dinheiro para pagar fornecedores e funcionários, a empresa reduziu a produção e, consequentemente, as receitas caíram de R$ 550 milhões, em 2014, para menos da metade, em 2016. Já as dívidas bateram um recorde de R$ 180 milhões.

Sem muita saída, a Shefa colocou os ativos à venda. A suíça Emmi se interessou pelo negócio. Mas, durante as negociações, a Shefa foi ficando sem dinheiro. Se as operações parassem, a empresa perderia muito valor, o que forçou seus controladores a buscar alternativas a toque de caixa. Foi quando Eduardo Benedictis, um dos três irmãos à frente dos negócios, aceitou se encontrar com Francisco Silveira, aconselhado por Ernani Ponce, da consultoria Magma, que prestava serviços de auditoria à Shefa e auxiliava no processo de venda.

Mas a ajuda tinha um preço alto. A BS Factoring se dispôs a antecipar recebíveis do laticínio, mas pediu como garantia a marca Shefa, já que os outros bens da empresa tinham sido dados como garantia para bancos credores. No dia 25 de março de 2015, a BS assinou um contrato de prestação de serviços com a Shefa e liberou um crédito de 20 milhões de reais (o passivo depois bateria em 82 milhões de reais). Era o suficiente para a empresa manter as atividades enquanto a venda para os suíços estivesse avançando.

O problema foi que a venda nunca saiu e a Shefa não teve outro jeito senão pedir recuperação judicial em fevereiro de 2017. A marca, uma das mais tradicionais em supermercados da Região Sudeste, como combinado, passou para a BS Factoring. De lá para cá, Tuiuti e a família Benedictis, representada pela Dra. Ana Beatriz Quibáo, são partes em uma batalha judicial com o investidor que chegaria para salvar o negócio.

A discórdia

O maior ponto de discórdia é o controle da companhia. Em depoimento à Justiça, os fundadores da Tuiuti afirmam que, vendo que a situação da empresa se agravava, Silveira ofertou mais crédito e propôs um novo acordo à família. A BS compraria o negócio e assumiria as dívidas. Sem alternativa, a família, segundo relatado à Justiça, aceitou as condições e transferiu o controle da Tuiuti em maio de 2016. A Kobold alegou em um processo, que também corre na justiça de Amparo, que quem assumiu o negócio não foi a BS, mas, sim, supostos funcionários e conhecidos de Silveira: João Edson Sorio e João Sidnei Silveira Leite, este último morador de Itu, mesma cidade de Silveira.

De acordo com a Kobold, os novos proprietários reconheceram uma dívida de R$ 47 milhões com a BS pouco antes do pedido de recuperação judicial, mas suspeitam que o valor supostamente nunca teria entrado no caixa da empresa. Ou seja, acusam Silveira de fabricar dívidas para ganhar mais dinheiro em cima da companhia e de pôr em marcha uma estratégia para assumir seu comando — e minimizar o prejuízo com a recuperação. Silveira conduziu pessoalmente reuniões com fornecedores e credores, identificando-se como o novo dono da Tuiuti.

Gilmar Donizete Menighini, advogado de Silveira e responsável legal pela BS Factoring, afirma que a empresa atua exclusivamente como credora no processo de recuperação judicial da Tuiuti. Nega, portanto, que Silveira ou qualquer pessoa ligada a ele tenha assumido o controle da companhia. No processo, Menighini refuta todas as acusações. Roberto Adabo, executivo que assumiu a Tuiuti após a troca do controle, disse que Silveira não é dono do laticínio.

Relembrando o histórico

No processo, os irmãos Benedictis, representados pela Dra. Ana Beatriz Quibáo, relembra outros processos da BS e de seu fundador, argumentando que disputas e transferências de controle contestadas fazem parte de seu histórico. Roberto Adabo, assim como João Sidnei Silveira Leite, trabalharam também na Líder Alimentos (Leite é, inclusive, um dos sócios da Shefa). A Líder foi um dos três ativos que a produtora de leite LBR vendeu, durante seu processo de recuperação judicial, em 2014, à ARC Medical Logística, empresa de Raquel e Renata da Silveira Fontoura, sobrinhas de Silveira.

Na ocasião, Silveira afirmou que não tinha vínculo com a ARC. A BS era uma das principais credoras da LBR, com passivos de aproximadamente R$ 150 milhões.

Em 2016, os antigos donos da empresa capixaba de transportes Patagônia também questionaram a transferência do controle do negócio, feito em 2011, antes do pedido de recuperação judicial, para Diego da Silveira Pavanelli, também sobrinho de Silveira, como pagamento pelo valor devido à BS.
Em 2015, a indústria de produtos de higiene Cria Sim, de Diadema, na região metropolitana de São Paulo, acusou a BS de não dar baixa em dívidas já pagas, com o objetivo de assumir o comando da companhia.
Em seus 23 anos no mercado, a BS Factoring já assinou dezenas de contratos com empresas em dificuldade nos mais diversos setores, como produtos de limpeza, carnes e óleo de soja. Mas o segmento de lácteos é um de seus preferidos.

Parmalat

Silveira é conhecido por ter mantido durante anos uma linha de crédito com a Parmalat e, posteriormente, com a LBR. Além da BS, ele é sócio direto em outras sete factorings. Atualmente, mora em Itu, onde também tem participação em companhias de transporte turístico, indústria de polpa de suco, corretora de seguros e gestoras de propriedades imobiliárias.

Ele chegou a trabalhar durante alguns anos em bancos, mas foi a BS Factoring Fomento Comercial, fundada em abril de 1994, que lhe deu projeção no mercado financeiro. Sua especialidade? Emprestar a quem ninguém mais quer dar crédito.

O grande apetite para o risco e a disposição de fechar contratos vultosos, muitas vezes sem toda a documentação pedida por outros possíveis credores, renderam-lhe no mercado o apelido de “Chico Louco”. Em geral, fundos de fomento não gostam de dar mais de 50 milhões de reais em crédito para um mesmo cliente. Silveira aposta mais alto (muitas vezes acima de 100 milhões) e gosta de concentrar suas fichas.

Para assumir tamanho risco, cobra caro. Seus serviços podem custar até o dobro de outras factorings, em torno de 3% do valor total do crédito. Mas é quando a empresa não paga que Silveira se destaca. Ele não recua na hora de pedir garantias em caso de calote, como carros de luxo, imóveis, fazendas e fábricas. E não se intimida com processos complexos e longos.

A ação dos irmãos Benedictis contra a BS Factoring e Silveira deve em breve ser analisada pela Justiça em Amparo. Caso se verifique que Silveira, de fato, assumiu o controle da Tuiuti e que os créditos da BS são forjados, como alega a Kobold, ele poderá ser denunciado por crimes falimentares, especialmente por fraude contra os credores no processo de recuperação judicial e numa eventual falência. Enquanto o processo não se desenrola, a Tuiuti segue produzindo laticínios e sucos com a marca Shefa.

 


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