Por: Marcelo Henrique
01/03/2022
08:03

Estou triste, tristíssimo, aliás, de uma tristeza que dói na alma! Rememoro, neste momento, as palavras basilares de Ruy Barbosa, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, em sua lucidez perene que, ainda hoje, no terceiro milênio, catequiza e ensina, palavras essas infelizmente atualíssimas. Ruy as pronunciou em 17 de março de 1917, numa conferência em benefício da Cruz Vermelha dos Aliados, durante a Primeira Guerra Mundial. Ei-las para nossa reflexão:

“A lei de Caim é a lei do fratricídio. A lei do fratricídio é a lei da guerra. A lei da guerra é lei da força. A lei da força é a lei da insídia, a lei do assalto, a lei da pilhagem, a lei da bestialidade. Lei que nega a noção de todas as leis, lei de inconsciência, que autoriza a perfídia, consagra a brutalidade, agaloa a insolência, eterniza o ódio, premia o roubo, coroa a matança, organiza a devastação, semeia a barbárie, assenta o direito, a sociedade, o Estado no princípio da opressão, na onipotência do mal.

Lei de anarquia que se opõe à essência de toda legalidade, substituindo a regra pelo arbítrio, a ordem pela violência, a autoridade pela tirania, o título jurídico pela extorsão armada.

Lei animal, que se insurge contra a existência de toda a humanidade, ensinando o homicídio, propagando a crueza, destruindo lares, bombardeando templos, envolvendo na chacina universal velhos, mulheres e crianças.

Lei de torpeza que proscreve o coração, a moral e a honra, misturando a morte com o estupro, a viuvez com a prostituição, a ignomínia com a orfandade.

Lei de mentira, na falsa história que escreve, nos falsos pretextos que invoca, na falsa ciência que explora, na falsa dignidade que ostenta, na falsa bravura que assoalha, nas falsas liberdades que reivindica, fuzilando enfermeiras, atacando hospitais, metralhando povoações desarmadas, incendiando aldeias, bombardeando cidades abertas, mirando estradas navais do comércio, submergindo navios mercantes, canhoneando tripulações e passageiros refugiados nas lanchas de salvamento, abandonando as vítimas da covardia das suas proezas marítimas aos mares revoltos e aos frios dos invernos boreais.

Lei do sofisma, lei da inveja, lei da carniceria, lei do instinto sanguinário, lei do homem brutificado, lei de Caim.”

Retomando. Esse rugido que se eleva agora do outro lado do mundo, que movimenta exércitos em colunas cerradas e aparelha aeronaves com bombas, é o rugido bestial da guerra que estala sobre a Ucrânia, covardemente invadida pela Rússia.

Putin apresenta ao mundo, além de severas ameaças, “justificativas” que me fazem recordar, nos escaninhos da história, aquelas apresentadas por Hitler, em 1938, para anexar a Áustria, convertendo-a em uma província do Terceiro Reich.

É preciso, pois, que ergamos nossa voz contra esse ato bestial de um déspota que move peças humanas como quem promove combates em inocente jogo de tabuleiro. O grito de socorro dos inocentes penetra e perturba o coração do Brasil.

Mata-se por incontida sede de conquista de territórios! Mata-se por vaidade! Mata-se por revanchismo de regimes totalitários, assim como, ao longo dos séculos, e até dos milênios, já se matou em nome de Deus!

Ergamos, repito, a nossa voz contra o clamor nauseabundo das guerras, vibrando, com amor, em favor da paz.

Nota da redação: Marcelo Henrique, poeta, escritor e jornalista


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