Por: Marcelo Henrique
22/02/2021
08:02

Aprendi, com a saudosa e inigualável mestra Edda Lancia Barbosa, no curso de Letras, duas verdades lapidares: “A língua quem faz é o povo” e “O uso consolida a forma”. A gramática, assim como outros códigos, é inacessível para a maioria; exatamente por isso, seu ensino (ou, pelo menos, sua compreensão) deve ser, tanto quanto possível, democratizado, sem jamais se prestar a ser instrumento de dominação. Num mundo infestado por tantos preconceitos, que não seja o preconceito gramatical mais um germe a nos contaminar.

Costumo dizer que somos (ou deveríamos ser) poliglotas em nossa própria língua, pois nos comunicamos, sobretudo na linguagem oral, em diferentes padrões, a depender do nosso interlocutor: um amigo próximo, um magistrado, e por aí vai (são padrões diferentes, cânones diversos). Não adiantaria eu me deter, por uns 15 minutos, conversando com o gari que varre a rua de minha casa e, ao me despedir, ele comentar com outrem: “Poxa! Como aquele ‘cara’ é inteligente! Não entendi nada do que ele disse”. Nesse caso, teria provado justamente o contrário, que não sou inteligente, afinal, haveria falhado em minha missão primeira, que é me comunicar, ou seja, ser compreendido pelo meu interlocutor. Isso vale para todos os níveis de conversação: é preciso compreender e se fazer compreender, nem que para isso, por vezes, tenhamos que nos traduzir para passar, satisfatoriamente, a mensagem que desejamos.

Machiavel, o fabuloso autor de “O Príncipe”, quando os Médici derrubaram a República e, em 1512, retomaram o governo de Florença, perdido em 1494, foi destituído de seu cargo e recolheu-se ao exílio voluntário na propriedade de San Casciano, perto de Florença. Conta-se que, durante o dia, ele trabalhava na lavoura, colhendo uvas, entre os simples, homens do campo, falando e agindo como eles; porém, à noite, quando se recolhia à sua casa, fechava-se em sua biblioteca pessoal e, ali, naquele recanto de paz e de quietude, voltava a ser o mesmo Machiavel que os poderosos conheciam, pleno de cultura e de lucidez. Ele se fez múltiplo para que sua mensagem chegasse a todos numa época em que o conhecimento era elitizado, quase “secreto”. Exatamente por isso, sua obra e seu pensamento atravessaram o véu do tempo e chegaram até nós.

Mais importante, ainda, que ser “poliglota” é ser condescendente no aspecto linguístico, ou seja, não criticar os “erros” de português cometidos por aqueles que, por diversos motivos, não tiveram acesso à norma culta. Afinal, não se trata de uma disputa para saber quem sabe mais a nossa língua.

Um mestre da floresta, Raimundo Irineu Serra, que só sabia “desenhar” o próprio nome, deixou para seus discípulos preciosos ensinamentos. E pontificou: “O saber de todo mundo / É um saber universal (...) / Para ser bom professor / Apresentar o seu saber”. São saberes igualmente importantes que, juntos, somados, constroem o verdadeiro conhecimento. É como já disse o educador Paulo Freire: “Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”.

Se efetivamente pretendemos construir uma sociedade tolerante com as diferenças, há que se começar pelo despojamento do preconceito linguístico, pois a linguagem não pode servir de instrumento de controle e coerção social.

Lutar pela preservação da Língua Portuguesa é uma coisa; utilizar as ferramentas da norma culta como “chicote” para vergastar o dorso dos que não a dominam é outra, bem diferente. O fato de saber a regência correta de um verbo, por exemplo, não gera vantagem ou superioridade sobre ninguém, muito menos sobre aqueles que não se sentem nem sujeitos da sua própria vida.

Há que se combater o preconceito linguístico! Espalhe seu conhecimento, respeitando, porém, o conhecimento do outro, a bagagem que o outro traz; assim, estaremos ajudando a combater a ideologia de exclusão e de dominação política pela língua.

Nota da Redação: Marcelo Henrique, poeta, escritor e jornalista

 


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