Por: Marcelo Henrique - poeta e jornalista
25/08/2021
11:08

Neste 25 de agosto, dia em que se completam 60 anos da renúncia do presidente Jânio Quadros, lembrei-me de que, durante a primeira visita que fiz ao velho Jânio, em seu palacete, no majestoso bairro do Morumbi, Zona Sul de São Paulo, no dia 24 de junho de 1990, um domingo, dia do fatídico jogo Brasil x Argentina (XIV Copa do Mundo, na Itália), enquanto assistíamos pela TV (uma imensa televisão Panasonic) à derrota do Brasil para os gringos argentinos, fiz incontáveis perguntas ao ex-presidente – sobre literatura e sobre política.

O Jânio Quadros que eu conheci no ocaso de uma vida que não precisou de tintas para colorir-se e ganhar interesse era um humanista vigoroso a ofuscar, pelo gigantismo, o Jânio Quadros da vassoura, dos palanques – arquétipo “made in” Vila Maria. Nossos encontros renderam, inclusive, um livro – “Jânio Quadros – Sem Retoque” (1ª edição 2001 / 2ª edição 2011 – com prefácio de Saulo Ramos), livro no qual está registrado, entre outros relatos, este meu depoimento testemunhal.

O escritório de Jânio era uma peça montada para impressionar visitantes. Nas estantes envidraçadas, os livros repousavam arrumados com esmero, ao lado de duas bandeiras: a inglesa e a brasileira. Um busto de Jânio Presidente disputava a cena com dois retratos de Abraham Lincoln autografados, um de 1869, além de um terceiro retrato, esse do Marechal Cândido Rondon.

Havíamos deixado seu escritório e, agora, estávamos na sala de TV assistindo ao jogo da Copa, dando sequência à conversa iniciada no escritório, antes de descermos para a parte térrea da mansão para o almoço.

Após se acomodar, sereno, sempre apoiado na bengala, Jânio teceu a seguinte observação:

– Este sofá já está afundado no lugar onde eu me sento...

Bem-humorado, Jânio exibia sua bengala, dizendo que ela conhecia Londres muito bem, enfatizando:

– Eu conheço bem a Inglaterra!

Gerações conheceram de perto ou através da mídia o homem do governo áspero, duro, inflexível, que foi Jânio Quadros, mas quis Deus que eu o conhecesse já em seu declínio físico, quando pude perceber, de forma acendrada, a sensibilidade de Jânio, a alma que existiu no homem que travou brutais lutas políticas...

Jânio tinha cultura, tinha inteligência e, apesar do delicado estado de saúde, extraordinária lucidez mental. Conhecia três idiomas. Era um grande orador – declamava, de cor, o “Hamlet”, de Shakespeare. Era advogado e professor.

Perguntei a Jânio se a frase “Se a Democracia correr perigo, sou candidato” (dita em 22 de novembro de 1988) era, ainda, válida. Eu desconhecia que o próprio Jânio já havia tido o cuidado de retificar o que havia dito: “Pelo amor de Deus, eu não sou candidato em hipótese alguma” (16 de agosto de 1989).

Outra pergunta. Quis saber de Jânio o porquê de sua maneira tão singular de se dirigir, iniciando discursos, ao eleitorado de Vila Maria – “Povo de Vila Maria, de Vila Maria de cima, de Vila Maria de baixo”. Dona Eloá, para minha surpresa, assumiu a conversação: “É verdade... Jânio precisava distinguir a Vila Maria ‘alta’ da Vila Maria ‘baixa’.”

Reservei para Jânio, então já fragilizado por dois derrames cerebrais (o terceiro ocorreria no final de julho daquele ano) uma pergunta crucial; dourando a pílula, balbuciei uma pergunta invertida:

– Dr. Jânio... na Presidência da República, era possível governar com um vice de outro partido, de outra coligação?

Evidentemente, se eu lhe perguntasse diretamente por que renunciou no dia 25 de agosto de 1961, uma sexta-feira, ele me expulsaria a trancos e barrancos...

Jânio, com o queixo apoiado sobre as mãos e estas, na bengala à sua frente, respondeu-me:

– Não. Foi aí que surgiram as divergências...

E, por segundos, emudeceu, fingindo estar atento ao jogo. Continuou:

– Renunciei, como o senhor sabe, como registra a História, por causa daquele cafajeste do “Jango” e sua laia. Fui pressionado à renúncia... e renunciei.

Novo silêncio.

– Não quis rasgar a Constituição e dissolver o Congresso. Se eu permanecesse, meu amigo, nesse oceano de corruptos, mentirosos ou radicais ignorantes, seria deposto ou morto.

E, emocionado, Jânio concluiu:

– Não nasci presidente, mas nasci livre... livre, meu amigo!

Essa é a versão que o próprio Jânio me deu, nesse nosso primeiro encontro, na conversa presenciada apenas pelo amigo Dedes Rossi Casagrande (hoje, advogado em Jundiaí) e por dona Eloá. Interessante que, na essência, as palavras de Jânio coincidem, no que diz respeito ao “Jango” (o ex-presidente João Goulart, que era vice de Jânio), com uma declaração que o ex-presidente fez à revista “Status” em novembro de 1978: “Governar, então, no regime que me elegeu, dando-me, na Vice-presidência, ao mesmo tempo, um adversário que era inimigo era jogar nos dados a honra da República e de seus filhos”.

Com relação à sua declaração a mim, enquanto assistíamos ao jogo, sobre o Congresso e a Constituição, o mesmo Jânio, no passado, assim se manifestara: “Por alguns segundos, pensei em fechar o Congresso. E ter-me-iam bastado um cabo e dois soldados” (entrevista à Revista Afinal, em agosto de 1985). Antes, ainda durante o Governo Geisel, Jânio assim se manifestara com relação ao Congresso Nacional: “Podia tê-lo fechado. Talvez devesse tê-lo fechado. Não me faltavam os recursos da força. Deixei de o fazer porque jurara à Constituição, e não me sentia autorizado ao passo.”.

Mais adiante, examinando com maior vagar o que Jânio me disse, como num desabafo, sobre não haver nascido presidente, mas livre, verifiquei que o ex-presidente já havia se manifestado antes sobre essa falta de liberdade: “Como podia governar com o embaixador norte-americano ameaçando-me em meu gabinete, pedindo uma brigada para invadir Cuba?” (em palestra a 1.300 estudantes da Universidade Mackenzie, em agosto de 1980).

Em seu prefácio à segunda edição de meu livro “Jânio Quadros – Sem Retoque”, Saulo Ramos explica que “(...) quem quiser entender os motivos que levaram Jânio à renúncia tem que estudar a renúncia de De Gaulle, na França, deixando o cargo de primeiro-ministro, e que, para voltar ao poder, seis anos depois, exigiu uma Constituição que ele próprio mandara redigir pelo jurista Debret”. Ou seja: seria, então, De Gaulle e não Fidel a grande “inspiração” de Jânio para sua renúncia.

Encerro por aqui esta reminiscência (doido e doído de saudade!). Grande Jânio! Tive a honra de conhecer (e de visitar por diversas vezes) certamente o maior dos zeladores das nossas riquezas vocabulares, o ourives que recenou as alfaias, as baixelas do nosso falar, bordando períodos unidos como tramas de seda de Macau; fez da Língua Portuguesa, incomparável pela formosura, um prodígio de expressão. Jânio – Prometeu! A luz no caos!


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