Por: André Bogado Cunho - Colunista A Tribuna
14/08/2021
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Na coluna da semana passada, ao comentar sobre insights, referi-me a uma frase que advinda de um sonho que tive. Ela dizia: não é um lugar que faz a gente feliz, mas a gente é que faz um lugar feliz. Ela denota certa profundidade que merece ser abordada no dia de hoje.

Percebo que muitas pessoas buscam a felicidade num futuro que nunca chega. Ela somente será alcançada quando certas coisas se realizarem, ou seja, uma viagem, a compra da casa própria ou a obtenção de um novo emprego. As pessoas ligam os sonhos à felicidade, acham que esta depende da realização deles. Há uma condicionante, que pode ser resumida em: “no momento em que realizar meu sonho, serei feliz”. Quando ele não é atingido, há certa frustração e o sentimento de infelicidade; no entanto, quando ele é realizado, percebe-se que aquilo não é tudo e que há necessidade de outras coisas para chegar à tão almejada felicidade. Uma coisa só não basta.

Com o lugar ocorre o mesmo. Há quem diga que se morar em determinada cidade ou país será totalmente feliz. Isso pode ser em relação a Paris, Nova Iorque ou mesmo em um pequeno lugar no interior. Outros acham que é preciso morar na praia ou no campo. Novamente condicionantes à felicidade.

Se a pessoa realmente muda-se para o local desejado, é certo que, depois de algum tempo, irá perceber que só o encanto inicial não basta. Há o relacionamento pessoal, acontecem imprevistos e o sentimento da falta de algumas coisas a que estava acostumada no outro lugar. Ocorre que a imaginação não tem limite e quando se busca morar num lugar tido como perfeito, na verdade, ele é somente idealizado, atribuindo-lhe qualidades que muitas vezes não tem. O lugar muda, mas o ser humano é o mesmo, independentemente de países ou credos religiosos. No fundo, não importa o lugar, os problemas anteriores continuarão a existir. Os costumes podem ser diferentes, mas as dificuldades serão iguais ou até mesmo maiores.

Por conta disso que se pode concluir que aquilo que atrapalha é a idealização e a busca do irreal. Por vezes, na cabeça de alguém, um lugar é um paraíso, onde a natureza é bela, as pessoas são dóceis e o clima é ameno. Não existe lugar assim e nunca existirá.

Há também aqueles que só reclamam da cidade ou do bairro onde vivem. Querem se mudar para qualquer outro, porém, devido às suas condições financeiras, não podem fazê-lo. Por conta disso, dizem que são infelizes e só deixarão esta situação quando passarem a residir em outro local.

Não é um lugar que nos faz felizes, mas nós é que fazemos um lugar feliz. Realmente, pode-se morar num palácio, em paraíso tropical, com muita paz e segurança e ser profundamente infeliz. O problema não é externo, mas interno. Ele não se resolve com superficialidades, caso contrário não haveria tanta depressão e suicídio de pessoas que têm todas essas facilidades.

Há quem more em favela e vive sorrindo, sempre contente; também há quem more numa mansão, mas está constantemente mal-humorado. Não é o externo que muda o interno, mas o inverso. Uma cidade, mesmo que pobre e feia, pode ter inúmeras pessoas felizes e que não almejam mudar-se de lá. Há mesmo pessoas, que por uma opção, vivem enclausuradas, mas que se sentem bem assim e não querem outra vida. A transformação individual leva à transformação de todas as coisas que nos cercam. Devemos valorizar mais o lugar em que vivemos, nossa família e o emprego que temos. Se estou bem comigo mesmo, para que preciso viver num paraíso?

É ilusão achar que podemos mudar o planeta. A única transformação que pode ocorrer é dentro de nós mesmos. Se conseguirmos isso, estaremos contribuindo para que o mundo seja melhor e que os lugares, sejam eles quais forem, se tornem verdadeiros paraísos.

 


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