Por: Jornal A Tribuna
14/12/2022
07:00

Já faz algum tempo que tratei nesta coluna da diferença entre sabedoria e conhecimento. Este último é adquirido através do estudo e de seu aprofundamento, enquanto que o primeiro é fruto da experiência e da aprendizagem das lições que a vida ensina. Não pretendo voltar ao assunto, mas abordar uma face dele, que é a desvalorização de ambos nos dias atuais.

Pode parecer saudosismo ou a visão de um velho, mas creio que o mundo, de uma forma geral, “emburreceu”. O fato de as pessoas lerem menos as grandes obras de Literatura, História, Geografia e Conhecimentos Gerais faz com que a sua visão de mundo diminua, prejudicando muito a percepção da verdadeira realidade. Hoje, a maior parte da população lê apenas as mensagens das mídias sociais, o que é insuficiente para ampliar seus conhecimentos. Pelo contrário, essas pessoas estão mais suscetíveis às informações falsas, as chamadas “fake news”.

Existem notícias evidentemente inverídicas, verdadeiros absurdos, mas elas são aceitas como verdades absolutas. Com a falta da leitura de grandes obras, boa parte da população perdeu a capacidade de racionar, de contestar, de gerar dúvidas sobre afirmações duvidosas. Isso faz com que ela seja mais facilmente manipulada por pessoas inescrupulosas.

Na verdade, o conhecimento está muito desvalorizado. Ao menos no Brasil, o investimento na educação, na cultura e na pesquisa científica caiu muito nos últimos tempos. Um país só se torna grande quando o governo valoriza essas áreas do conhecimento. Veja-se o caso do Japão após a Segunda Guerra. Um país destruído tinha de recomeçar. Traçou-se um plano para que ele pudesse se desenvolver e só foi possível atingir o seu objetivo porque houve imenso investimento nessas áreas. Até mesmo a China, nas últimas décadas, passou a valorizar a ciência, daí que a sua economia cresceu muito e tornou-se a segunda maior do mundo, perdendo somente para os Estados Unidos.

A falta de leitura de obras importantes e da aquisição de conhecimento verdadeiro levou à criação do chamado “Tiozão do Zap”. Essa figura esdrúxula parece entender de todos os assuntos: medicina, economia, direito e tudo mais. Fala com propriedade e desenvoltura, dá uma série de dados sem dizer a fonte, cita cientistas desacreditados ou que sequer existem. Traz a falsa impressão de falar a verdade, mas, no fundo, percebe perfeitamente que não sabe absolutamente nada. No entanto, a mensagem é curtida e compartilhada por milhões de pessoas.

O “Tiozão do Zap”, nos últimos tempos, especializou-se em Direito, principalmente em Direito Constitucional. Ataca promotores, juízes, desembargadores e ministros dos tribunais superiores que pensam diferente dele. Faz interpretações absurdas dos textos legais, pois não tem nenhuma formação jurídica; é puro “achismo”. De nada adianta um jurista respeitado, com boa formação universitária, com títulos como mestrado, doutorado e pós-doutorado, professor em importantes faculdades, vir a público esclarecer a verdade dos fatos. Os ignorantes não aceitam. Preferem acreditar no “Tiozão do Zap”. O mesmo se diga de questões médicas, econômicas e de outras áreas do conhecimento humano.

A desvalorização não se dá apenas com o conhecimento. Ela também ocorre em relação à sabedoria. Pessoas que têm vasta vivência, experiência que adquiram ao longo de uma vida são desprezadas pelas mesmas pessoas que acreditam no “Tiozão do Zap”. Não adiantam conselhos, orientações e exemplos.

Os bons livros estão à espera de leitores que saibam tirar deles o conhecimento e até mesmo a sabedoria que eles transmitem. Mesmo quem não possui muito dinheiro pode encontrá-los em bibliotecas ou mesmo na internet, sem custo algum. Basta o desejo de conhecer a verdade, aprender a pensar e duvidar de coisas que são evidentemente falsas.


  Compartilhar

Assinar o Jornal



Identificação do Assinante


Digite nos campos abaixo o seu e-mail ou CPF de cadatro em nosso site e sua senha de acesso.


Esqueceu o seus dados? Fale com a gente!

Assinatura