Por: Marcelo Henrique
03/06/2023
08:00

Conheço vários adolescentes e jovens, ex-alunos ou não, que estão envolvidos (engajados mesmo) nas chamadas “batalhas de rimas”, que são uma modalidade do hip-hop que consiste em um duelo de MCs (mestres de cerimônias), em que os duelistas ou combatentes apresentam rimas improvisadas sobre os mais diversos assuntos, desde “gastação” (rimas engraçadas) até “ideologia” (rimas sobre a realidade), “trocadilhos” (rimas com duplo sentido) e “speedflow” (rimas rápidas). Homofobia, racismo, machismo e violência do Estado, entre outras questões, estão entre os temas abordados pelos jovens poetas urbanos. Também existe o “slam”, uma competição de poesia falada que surgiu em Chicago, em meados dos anos 80, na mesma época do hip-hop.

Tenho para mim que as batalhas de rimas têm um quê do Trovadorismo medieval (a poesia musicada) e muito dos repentistas do Nordeste (já que as batalhas de rima são, preponderantemente, batalhas de improviso), retirando a poesia de seu pedestal elitista e trazendo-a para as ruas e praças – como, aliás, pode e deve ser (os varais de poesia que promovi na década de 90 que o digam!) –, atirando granadas de luz em direção ao infinito.

Atualmente, toda primeira segunda-feira do mês, pessoas de diversas partes de São Paulo – Capital se reúnem na Praça Roosevelt, no centro, para ver e ouvir poetas urbanos declamar seus poemas com a mesma voracidade com que, no passado, nessa mesma São Paulo, a famosa poetisa Colombina – cognome de Yde Schloenbach Blumenschein (eternizada  numa das ruas do Jardim Bonfiglioli, em SP – Rua Poetisa Colombina) – abria as portas de sua casa para concorridos saraus que contavam, entre outros, com presenças como as de Guilherme de Almeida e Paulo Bomfim. Em Amparo/SP, dois expressivos movimentos têm congregado parte da juventude amparense em torno das batalhas de rimas e de outras manifestações culturais: a “Batalha da Pracinha” (já em sua oitava edição), na Praça André Jacobsen, distrito de Arcadas, e o Projeto “PoeDimas” (que, no último dia 13 de maio, completou cinco anos de existência), no Jardim São Dimas.

As batalhas de rimas conseguiram, naturalmente, o que os concursos de poesia convencionais, com raras e expressivas exceções, jamais conseguiram, ou seja, congregar adolescentes e jovens em torno da poesia. Em grande parte, isso é culpa dos editores, das instituições literárias e do meio acadêmico, que, via de regra, são os que promovem esses certames. Afinal, esperar que adolescentes e jovens cheios de “gás” deixem de ir para a “balada” para ficar em casa escrevendo um poema para participar de um concurso cujo prêmio é um horrendo certificado e, talvez, uma medalha ou um troféu de latão é uma utopia. Teria bastado, décadas antes, recorrer a patrocínios e oferecer, como prêmio, algo mais atrativo, como uma moto zero, uma bolsa de estudos em determinada faculdade/universidade ou valor “x” em dinheiro. Ou será que acham que os poetas, sobretudo os jovens poetas, vivem de brisa?

Esses jovens poetas urbanos, graças às batalhas de rimas, nascidas nas esquinas e popularizadas como competições no início deste milênio, travaram conhecimento com a dura realidade dos guetos e, através da música e das batalhas de rima, adquiriram, precocemente, uma consciência da função social da poesia; logo, já sabem que poesia não é um amontoado de palavras bonitas ou um rasteiro instrumento de xaveco barato e vazio. Poesia sangra e dói; poesia é "????????????????????", é a manifestação da alma através do poema – a sua forma materializada!

Apoio, incondicionalmente, esses adolescentes e jovens, os poetas do agora, em suas batalhas de rima, em suas manifestações artísticas, sugerindo, apenas, que se aproximem, com sua arte, com seu calor e com sua energia, dos poetas tradicionais, sobretudo os mais velhinhos, somando esforços para revigorar a poesia como um todo, aprimorando-se, também, tanto quanto possível, no conhecimento da gramática, da literatura e da arte da declamação, pois, como já se sabe, a poesia não cabe mais somente nos livros ou, pior, nas gavetas – ela precisa ser vomitada, com vigor, por bocas corajosas e peitos fortes, porém sensíveis, revelando a todos um verdadeiro oásis no deserto das consciências: a flor da poesia que nasce do asfalto.

Nota da redação: Marcelo Henrique, poeta, escritor e jornalista.


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