Por:
09/07/2019
02:00

height=403Rodrigo Amancio Briozo

Sempre que um governante perde a capacidade de governar, ele, antes mesmo de qualquer autocrítica – que por sinal nunca ocorre - coloca a culpa em alguém. Geralmente, é o Legislativo que não aprova suas propostas ou, então, a culpa é da mídia, que só quer se aproveitar do dinheiro público e distorce os fatos, ou, ainda, a culpa é da sociedade que não apoia porque não tem discernimento e está sendo manipulada por a, b, c ou d. Mas será que são sempre esses fatores os culpados por sua ingovernabilidade?

Em campanhas eleitorais, é comum candidatos apresentarem suas propostas baseadas nas decisões partidárias, em suas convicções pessoais, em suas interpretações dos anseios da população. O candidato dificilmente conseguirá convergir sua plataforma de governo para todos os eleitores. Porém, após eleito, ele não só tem a necessidade de governar para toda a população como tem obrigação de fazê-lo. E excluir das políticas públicas pessoas que pensam, defendem, lutam por ideias diferentes das suas, assim como ideais diferentes dos seus é, na verdade, seu maior erro.

O diálogo entre pessoas que diferem em pensamentos, ideias e posicionamentos não só é salutar como enobrece e engrandece os envolvidos. Esse exercício, que não é fácil de se realizar, é o grande diferencial dos grandes líderes. Somente os verdadeiramente grandes têm a capacidade de dialogar, entendimento e discernimento do que deve ser feito, sempre pautado para o bem comum.

E o que temos visto hoje em praticamente todos os níveis de governo? Uma imensa dificuldade de diálogo, pois se criou no subconsciente que diálogo é sinônimo de negociata espúria com fins não republicanos. Construiu-se no imaginário que existe um monstro a ser derrotado com todas as forças e armas disponíveis. E que essa luta do bem contra o mal é que salvará nosso país do juízo final.

Neste momento, amigo leitor, não quero que me interprete como o mais ingênuo do planeta Terra. Sei que nossa classe política não é composta por santos puritanos, seres de índoles inquestionáveis. Sei que alguns interesses que conduzem o dia a dia dos nossos políticos não são os mais nobres. Sei que muitos chegaram aonde chegaram usando dos piores meios possíveis para obtenção dos votos necessários. Mas será mesmo que o caminho para mudar isso é por meio do conflito e não usando a inteligência? Será que por meio do diálogo transparente, inclusivo, convergente, plural, republicano, não se consegue obter o êxito necessário para nos conduzir a uma situação de uma nação superior?

Enquanto nossos governantes não usam sua inteligência (por intenção ou falta) para a convergência para o bem de todos, temos 28,4 milhões de pessoas que não trabalham ou trabalham menos do que gostariam, sendo destes 13,1 milhões de desempregados (IBGE), com aumento da renda acumulada dos mais ricos em 8,5% nos últimos sete anos contra uma queda de renda dos mais pobres em 14% (FGV/IBRE) no mesmo período. Ainda temos na pátria-mãe 72,4 milhões de brasileiros (Pnad/IBGE) que moram em casas que não têm nem mesmo rede de esgoto!

Para aqueles que apostam no conflito, no atrito, na desinformação, na guerra ideológica para superar esses gigantescos desafios, torço por prudência. Só resta lembrar que, caso o fracasso seja o resultado do uso da desinteligência, são milhões e milhões de vidas brasileiras que serão ainda mais afetadas, são idosos que não terão assistência e nossas crianças que não terão futuro. Neste caso e em tudo o mais, minha aposta é e sempre será o caminho do diálogo.

Nota da Redação: Rodrigo Amancio Briozo, morador de Amparo, é economista, mestre e doutorando pela USP


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