Por: Marcelo Henrique
02/03/2021
11:03

Quando menciono aos amigos mais jovens que Dom Pedro II esteve em Amparo, paira em seus semblantes um misto de espanto e de incredulidade. Não os censuro por isso. É, pois, natural o espanto.

Não há, que eu saiba, registro fotográfico dessa visita oficial do imperador do Brasil, mas, felizmente, embora poucos, encontrei consistentes, registros e apontamentos que comprovam essa importante visita ao povo de Amparo.

Aquele Amparo do final do século 19, de ruas poeirentas, mas já uma força viva na então Província de São Paulo, despontava como grande produtora de café, riqueza em que se baseava o Império do Brasil. A estrada de ferro havia chegado há pouco tempo. Republicanos e abolicionistas se entusiasmavam com os ideais democráticos, desafiando as estruturas da Monarquia.

Foi nesse cenário que, Amparo se engalanou para receber Sua Majestade Imperial o dia 16 de setembro de 1878, Dom Pedro II, sua esposa, a imperatriz dona Tereza Cristina (apelidada de “Mãe dos Brasileiros”), e comitiva, hóspedes da cidade e do sobrado do então comendador Joaquim Pinto de Araújo Cintra, futuro Barão de Campinas.

São remanescentes dessa visita dois móveis que integram o acervo do Museu “Bernardino de Campos”, encomendados na Alemanha pelo então futuro Barão de Campinas especialmente para a recepção ao imperador do Brasil: um sofá bordado a ouro (que está na reserva técnica do museu) e uma conversadeira (ou namoradeira), espécie de poltrona circular de três lugares, peça exposta à visitação pública.

No ano anterior, 1877, já haviam estado em Amparo o visconde do Rio Branco, político de grande relevo no Império (pai do barão do Rio Branco), e o conde d’Eu, esposo da princesa Isabel e, portanto, genro de Dom Pedro II.

O republicano Assis Prado, antimonarquista exaltado, colocou nos fundos de sua casa, na então Rua do Rosário, atual Rua XV de Novembro (aquele casarão em que, até pouco tempo, funcionou o “Seo Bastião”), uma grande bandeira repleta de datas e dizeres revolucionários, confeccionada por ele próprio, contendo, segundo consta, inclusive, um barrete frígio (ou barrete da liberdade), que é uma espécie de touca vermelha utilizada pelos republicanos franceses que lutaram pela tomada da Bastilha em 1789. Essa bandeira podia ser avistada perfeitamente da sacada do sobrado (depois, Patronato Jesus Crucificado e atual sede da Cúria Diocesana).

Segundo o historiador amparense dr. Áureo de Almeida Camargo (filho do ministro Laudo Ferreira de Camargo, que presidiu o STF), “Sua Majestade, ao ter conhecimento do ato praticado, não se perturbou, limitando-se a proferir uma frase curta e desairosa ao autor do desacato”. A citada bandeira com que Assis Prado desafiou o imperador do Brasil se encontra no acervo do Museu Histórico e Pedagógico “Bernardino de Campos”.

Durante sua estada em Amparo, Dom Pedro II visitou várias fazendas a derredor. Na Fazenda Salto Grande, que pertenceu primitivamente a Manuel Joaquim de Cerqueira César, mas, a esse tempo, já pertencia ao Visconde de Indaiatuba, Joaquim Bonifácio do Amaral, situada em terras do município de Monte Alegre do Sul (que foi distrito de Amparo até se emancipar em 1948), o imperador do Brasil fez questão de comer polenta com frango. A cozinheira foi a senhora Bárbara de Gasperi Tafner, oriunda de uma estirpe nobre da cidade de Trento, junto aos Alpes, na divisa entre Itália, Suíça e Áustria, cujo marido, Augusto Tafner, tirolês da gema, era administrador da propriedade.

Ressalto que jamais um chefe de Estado brasileiro voltaria a pisar terras amparenses no exercício do poder. Tenho para mim que essa foi, efetivamente, a visita mais ilustre que Amparo já recebeu e, por esse motivo, mergulhei em pesquisas para escrever este breve relato.

Nota da redação: Marcelo Henrique é jornalista e poeta. 


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