Por: Lilian Carmo   
23/09/2019
12:00

Lilian Carmo     

 

Ainda perplexa com o ocorrido na nesta quinta-feira (19), onde um aluno de 14 anos esfaqueou o professor em na zona leste de São Paulo, resolvi escrever sobre o quanto as escolas carecem de um trabalho estruturado de inteligência emocional. Não estamos falando de técnicas europeias de ensino ou de equipamentos tecnológicos importados, o insumo da inteligência emocional está dentro de cada personagem que compõe o círculo escolar: alunos, pais e professores.

E por que precisamos inserir esse tema no ambiente de aprendizado? Lidar com as emoções de maneira que haja consciência sobre elas, além de sabermos como utilizá-las a nosso favor, é um desafio contemporâneo. Temos muitos estímulos que nos afastam do desenvolvimento emocional como as redes sociais, jogos eletrônicos e uma vida agitada e pautada pela hiperconectividade. Todos esses fatores contribuem para que nossas fragilidades emocionais se agravem e se desenvolvam negativamente - não é à toa que sustentamos o título de país mais ansioso do mundo.

No ambiente escolar, os conflitos entre alunos e professores tem se agravado. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre violência em escolas com mais de 100 mil professores, apontam que o Brasil lidera o ranking de agressões contra docentes. É uma realidade que contribui para que o clima em sala de aula fique ainda mais tenso e, somado a outros fatores, como o bullying, desencadeiam reações emocionais das quais um adolescente não tem preparo para lidar (mas deveria ter).

Ao negligenciar o espectro emocional, podemos estar criando um círculo vicioso de manifestação de violência em momentos de sequestro emocional, conceito abordado por Daniel Goleman há vinte anos. Isso acontece quando a mente emocional toma conta das decisões em detrimento da mente racional. É nesta configuração que tomamos atitudes baseadas em impulsividade e, quase sempre, equivocadamente.

No caso do jovem aluno que atacou o professor em São Paulo, as notícias divulgadas apuraram que o jovem gozava de boas notas e bom comportamento, longe de qualquer suspeita sobre alguma debilidade emocional, certo? Errado! Suprimir emoções é uma das características de quem não tem inteligência emocional e não consegue lidar com elas. Quando falamos de emoções, entramos no campo do sistema límbico, uma estrutura cerebral mais primitiva e que, portanto, oferece respostas mais rápidas e intensas diante de estímulos – ainda que o nosso racional deseje o contrário.

Ainda não é possível sabermos o que realmente com o adolescente neste caso e nem apontar a saúde emocional do jovem como precursora do ato de violência. Mas, podemos entender que o trabalho de reconhecimento das próprias emoções tanto na escola quanto em casa, traz benefícios diretos na relação com familiares, colegas e professores. O desenvolvimento das habilidades socioemocionais durante a fase infanto-juvenil cria um terreno palatável para um maior controle dos gatilhos que nos tiram a consciência do que sentimos, como sentimos e como reagimos a estes sentimentos.

Nota da redação: Lilian Carmo é master coach, diretora e proprietária da Febracis Campinas, sócia da Optimize Consulting e palestrante nas áreas de liderança, gestão, carreira e desenvolvimento pessoal. É mestranda em Neurociência pela Florida Christian University (FCU), master trainer Febracis e pós-graduada em gestão de pessoas, com extensão em finanças pela FGV. Com mais de 18 anos de experiência, atuou como executiva na Johnson & Johnson, Astrazeneca, Sanofi Aventis, Banco Itaú e Banco do Brasil.


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