Por: Marcelo Henrique
02/09/2019
14:09

Há que se condenar com veemência a ignorância que domina os tempos atuais. Entenda-se por ignorância não a ausência de um título ou diploma ou, ainda, a falta de conhecimento acadêmico, mas, sim, a mente que se mantém fechada para o pensamento diverso, para a pluralidade das ideias. É, a exemplo da viseira de um burro, uma viseira ideológica que lhe foi imposta para que enxergasse, apenas, o que está à sua frente, impedindo-o de ver possibilidades ao seu lado, enclausurando-o em seus pensamentos fragmentados e em seus preconceitos medievais. Que fique bem claro: não estou, aqui, chamando ninguém de “burro”, pois sei que o paradoxo da burrice é justamente achar que burro é sempre o outro; estou condenando o pensamento unilateral, fundamentalista, e essa onda desoladora da política do xingamento.

Se é verdade que ninguém pode se permitir ser “colonizado” pelo pensamento alheio, também é verdade que, na condição de seres livres, ninguém pode abrir mão do direito e do gozo de pensar, do direito de exercer a capacidade de raciocínio para discernir sobre o que quer e deseja para si.

O grande mal dos nossos dias é a ignorância, que escraviza e entorpece, pois o cárcere das ideias aprisiona o indivíduo e o deixa estagnado. Rosa Luxemburgo, morta há exatos cem anos, pontuou: “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”. Essa “cadeia”, criada do lado de dentro, é que gera essa viseira imaterial que cega o homem que se recusa a conhecer um pensamento diferente do seu, que não se abre ao diálogo, que não quer ver, ouvir ou ler algo que se contraponha ao seu ponto de vista, muitas vezes equivocado. “Ah, pensa diferente de mim? Bloqueio no WhatsApp, excluo do Facebook! Rompo a amizade!”. Mais fácil assim... Fácil e triste!

Pitágoras, o sábio da antiga Grécia, muito antes de Cristo, já alertava: “Se me perguntar o que é a morte, respondo-te: a verdadeira morte é a ignorância. Quantos mortos entre os vivos!”.

O cidadão crítico e participativo inexiste sem liberdade de expressão, sem aprender a lidar com as diferenças, com ideias concorrentes e até com pontos de vista contraditórios, aberto, sempre, ao diálogo, ao debate (que é bem diferente de bate-boca). Por isso é que eu tenho pena de quem se limita e se refestela nas cinzas do ódio, do medo e do preconceito, vítima e algoz a serviço do pensamento unilateral. A ausência de debate, de espírito crítico, o culto à ignorância e o obscurantismo das ideias são instrumentos de domínio. Portanto, é preciso enxergar além, despojar-se de preconceitos para enxergar, com clareza e descortino mental, dentro de si mesmo, com absoluto respeito ao pluralismo do pensamento.

Nota da Redação: Marcelo Henrique é poeta, escritor e jornalista

 


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