O que Jânio me contou sobre sua renúncia

Por Marcelo Henrique de Souza

No último dia 25 de agosto, Dia do Soldado, mas também aniversário de 57 anos da renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República, lembrei-me de que, durante a primeira visita que fiz ao saudoso ex-presidente, em seu palacete, no majestoso bairro do Morumbi,  Zona Sul de São Paulo, no dia 24 de junho de 1990, um domingo, dia do fatídico jogo Brasil x Argentina (XIV Copa do Mundo, na Itália), enquanto assistíamos pela TV (uma imensa televisão Panasonic) à derrota do Brasil para os gringos argentinos, fiz incontáveis perguntas ao ex-presidente – sobre literatura e sobre política. Reservei para Jânio, então já fragilizado por dois derrames cerebrais (o terceiro ocorreria no final de julho daquele ano) uma pergunta crucial; dourando a pílula, balbuciei uma pergunta invertida:
– Dr. Jânio… na Presidência da República, era possível governar com um vice de outro partido, de outra coligação?
Evidentemente, se eu lhe perguntasse diretamente por que renunciou no dia 25 de agosto de 1961, uma sexta-feira, ele me expulsaria a trancos e barrancos…
Jânio, com o queixo apoiado sobre as mãos e estas, na bengala à sua frente, respondeu-me:
– Não. Foi aí que surgiram as divergências…
E, por segundos, emudeceu, fingindo estar atento ao jogo. Continuou:
– Renunciei, como o senhor sabe, como registra a História, por causa daquele cafajeste do “Jango” e sua laia. Fui pressionado à renúncia… e renunciei.
Novo silêncio.
– Não quis rasgar a Constituição e dissolver o Congresso. Se eu permanecesse, meu amigo, nesse oceano de corruptos, mentirosos ou radicais ignorantes, seria deposto ou morto.
E, emocionado, Jânio concluiu:
– Não nasci presidente, mas nasci livre… livre, meu amigo!
Essa é a versão que o próprio Jânio me deu, nesse nosso primeiro encontro, na conversa presenciada apenas pelo amigo Dedes Rossi Casagrande (hoje, advogado em Jundiaí) e por dona Eloá. Interessante que, na essência, as palavras de Jânio coincidem, no que diz respeito ao “Jango” (o ex-presidente João Goulart, que era vice de Jânio), com uma declaração que o ex-presidente fez à revista “Status” em novembro de 1978: “Governar, então, no regime que me elegeu, dando-me, na Vice-presidência, ao mesmo tempo, um adversário que era inimigo, era jogar nos dados a honra da República e de seus filhos”.
Com relação à sua declaração a mim, enquanto assistíamos ao jogo, sobre o Congresso e a Constituição, o mesmo Jânio, no passado, assim se manifestara: “Por alguns segundos, pensei em fechar o Congresso. E ter-me-iam bastado um cabo e dois soldados” (entrevista à Revista Afinal, em agosto de 1985). Antes, ainda durante o Governo Geisel, Jânio assim se manifestara com relação ao Congresso Nacional: “Podia tê-lo fechado. Talvez devesse tê-lo fechado. Não me faltavam os recursos da força. Deixei de o fazer porque jurara à Constituição, e não me sentia autorizado ao passo.”.
Mais adiante, examinando com maior vagar o que Jânio me disse, como num desabafo, sobre não haver nascido presidente, mas livre, verifiquei que o ex-presidente já havia se manifestado antes sobre essa falta de liberdade: “Como podia governar com o embaixador norte-americano ameaçando-me em meu gabinete, pedindo uma brigada para invadir Cuba?” (em palestra a 1.300 estudantes da Universidade Mackenzie, em agosto de 1980).
Encerro por aqui esta reminiscência (doido e doído de saudade!).
Grande Jânio! Tive a honra de conhecer (e de visitar por diversas vezes) certamente o maior dos zeladores das nossas riquezas vocabulares, o ourives que recenou as alfaias, as baixelas do nosso falar, bordando períodos unidos como tramas de seda de Macau; fez da Língua Portuguesa, incomparável pela formosura, um prodígio de expressão. Jânio – Prometeu! A luz no caos!

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