Meio Ambiente na política

Por Nicoli Sigaud
Nosso alimento vem da terra, precisamos de água para beber, para saneamento básico e para abastecer a indústria, assim como a energia, que é proveniente dos recursos naturais. Como o básico que nos mantém vivos pode não ser prioridade? Tivemos recentemente uma pequena amostra de uma situação de desabastecimento com a greve dos caminhoneiros; em uma situação de colapso, todo o resto é que se torna secundário. Como seria em uma situação de desabastecimento de água? Não é difícil de imaginar, pois infelizmente já é uma realidade. Recentemente, a escassez hídrica chegou a atingir vários estados, inclusive a cidade de São Paulo, o principal centro financeiro do país, onde milhares de pessoas ficaram sem água nas zonas periféricas. Há mais de 40 anos se tinha indícios de que poderíamos chegar a essa situação, mas os governos não agiram.
A crise hídrica não foi um fenômeno atípico, ela é consequência da má gestão e da degradação do patrimônio natural, ela está presente e seus princípios geradores continuam se agravando. Como ficaria o sistema de Saúde, Educação, a Economia e a Segurança Pública em um colapso hídrico? Ouvimos muito que essas esferas são a prioridade e que meio ambiente é secundário. Mas percebemos que a lógica é inversa; é preciso uma visão integrada.
Dentre as doenças mais comuns hoje no Brasil, estão o câncer, o diabetes, doenças do coração e aparelho circulatório, doenças respiratórias, alergias, depressão, cólera, dengue, hanseníase, hepatite, leishmaniose, malária e sarampo. A maioria é altamente associada e/ou agravada por fatores como: maus hábitos alimentares; estresse; ansiedade; poluição; falta de exercícios físicos, de saneamento básico e instrução sobre práticas de higiene. Todos esses fatores podem ser atenuados trabalhando a questão ambiental.
Na área rural, é possível adotar medidas como a implementação de tratamento de água e sistema de esgoto, adoção de técnicas de agricultura orgânica, reduzindo, assim, a exposição das pessoas aos agrotóxicos, que são relacionados, inclusive, a abortos e má formações fetais. Nos centros urbanos, pode se melhorar a qualidade ambiental e de vida através do aumento de áreas verdes, oferta de atividades ao ar livre nos espaços públicos e outras práticas.
Pode se trabalhar a educação alimentar, levantando informações sobre a origem e processo de fabricação dos alimentos, que, quanto mais processados, mais recursos naturais empregam em sua produção, mais substâncias químicas nocivas para quem ingere e poluentes disseminados no ambiente. E, ainda, trabalhar a educação para o descarte correto de resíduos e revisão de hábitos de consumo, que são o que direcionam as práticas industriais e de mercado. Só é possível a sustentabilidade com uma população bem instruída, consciente e responsável por suas escolhas e atitudes. Afinal, o que caracteriza ter boa saúde é o quanto menos as pessoas ficam doentes e não o quanto se gasta em tratamentos.
Na questão de Segurança Pública, também é possível prevenir através de uma abordagem ambiental. Muitas pesquisas realizadas em diversos países constataram que a presença de áreas verdes pode ser um poderoso aliado no combate à criminalidade nas cidades, pois incentiva a interação social e gera um efeito calmante e mentalmente restaurador que inibe precursores psicológicos para atos violentos ou que poderiam levar à prática criminosa.
Em Ohio, desde 2010, as autoridades locais começaram um projeto para converter terrenos e áreas abandonadas em espaços verdes. Desde então, o índice de criminalidade despencou. Bairros urbanos com mais espaços verdes têm níveis mais baixos de criminalidade e violência interpessoal, de acordo com pesquisa da Universidade de Washington. O prof. Frances Kuo, da Universidade de Illinois, realizou pesquisas que mostraram que áreas arborizadas aumentam a expectativa de vida e o índice de felicidade das pessoas. Acredita-se que viver perto de espaços limpos, bem cuidados e conservados é essencial para a melhora do estado físico, psicológico e bem-estar social, criando uma atmosfera mais civilizada, incentivando uma reação em cadeia positiva, interação social e supervisão da comunidade nos espaços públicos. Esse mesmo estudo aponta que pessoas com menos acesso à natureza mostram a atenção relativamente deficiente, função cognitiva baixa, má gestão das questões relacionada a acontecimentos diários e baixo controle do impulso.
Priorizar o meio ambiente é priorizar a Saúde, a Educação, a Economia (que sem a sustentabilidade é ilusória) e a Segurança. Tratar o tema como secundário é tratar o contexto geral de forma limitada. Nenhum outro tema afeta diretamente tantas outras esferas como o meio ambiente, que é o pilar sobre o qual construímos nossa sociedade. Precisamos levar o meio ambiente como prioridade em nossas escolhas políticas para priorizar as causas dos problemas.

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